PlotCast Drops #03 – O que é fascismo?

PlotCast Drops #03 - site

Vivemos tempos sombrios quando utilizamos fascista como sinônimo de pessoa que discorda das minhas ideias.

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George Orwell e o combate ao totalitarismo.

Recentemente temos ouvido o termo fascista com muita frequência. E toda vez que vejo, leio ou escuto alguém utilizá-lo, imagino “será que não presenciamos a banalização do fascismo?”. Dessa reflexão surge o episódio de hoje. Movido por isso, decidi recorrer a uma das principais mentes do século passado, cujo legado permanece cada vez mais entre nós. Falo, é claro, de George Orwell.

George Orwell foi um dos grandes escritores do século XX. Nasceu em Morihari, na Índia, em 1903, com o nome de Eric Arthur Blair. Ainda jovem, foi para a Inglaterra e, por isso, teve uma formação tradicional britânica. Na década de 1920, fez parte da Polícia Colonial na Birmânia. Colocou-se em situações inóspitas, como passar fome em Londres e Paris para entender a realidade das classes mais baixas. Levou um tiro no pescoço durante a Guerra Civil Espanhola. Deixou Eric para trás e tornou-se George. Porém, o mais importante para nós, as gerações futuras, é que Orwell viveu da escrita. Trabalhou como jornalista e escreveu artigos, ensaios, resenhas e romances que, mesmo publicados mais de meio século atrás, seguem mais atuais do que nunca.

Sendo um socialista convicto, foi um homem que não teve medo de levantar suas bandeiras e apontar as incoerências da direita britânica. Mas no que mais o admiro é que Orwell não teve medo de criticar seus próprios aliados ideológicos. Para isso, é preciso muito equilíbrio e serenidade. Por viver de perto tempos sombrios, lutou com armas e com palavras contra todas as formas de totalitarismo.

Seus principais romances, os quais, aliás, são clássicos da literatura do século passado, A revolução dos bichos e 1984, deixam isso muito claro. O termo Big Brother, o Grande Irmão que a todos vigia, é de Orwell. O duplipensamento, isso é, acreditar, ao mesmo tempo, em ideias contraditórias, é de Orwell. A novilíngua, um idioma constituído na ideia da exclusão de termos a fim de cercear a liberdade não apenas de expressão, mas de pensamento, foi um alerta de Orwell. Inclusive, o termo Guerra Fria, ao se referir ao período pós-Segunda Guerra, foi uma iniciativa de Orwell.

O que é fascismo?

Hoje, entretanto, não vou falar sobre esses dois clássicos do autor. Chamo a atenção para outro texto em especial. Intitulado O que é fascismo?, publicado originalmente em 24 de março de 1944, na coluna As I please (Como eu desejar, em tradução livre), do jornal Tribune. O texto em questão foi compilado no livro O que é fascismo? e outros ensaios, organizado por Sérgio Augusto e publicado pela Companhia das Letras.

Orwell inicia o artigo da seguinte forma:

De todas as perguntas não respondidas sobre nossa época, talvez a mais importante seja: “O que é fascismo?”

Na sequência, cita que uma pesquisa feita nos Estados Unidos realizou essa pergunta a cem pessoas e obteve respostas que iam desde “democracia pura” a “demonismo puro”. Orwell atenta que qualquer sujeito minimamente esclarecido no Reino Unido responderia à questão citada acima de que se tratava dos regimes alemão, de Hitler, e italiano, de Mussolini. Entretanto, seria uma resposta insatisfatória. Como ele bem lembra, Estados fascistas diferem em estrutura e ideologia.

Com frequência supõe-se, por exemplo, que o fascismo é inerentemente belicoso, que ele prospera num ambiente de histeria bélica e só pode resolver seus problemas econômicos mediante preparativos para a guerra ou conquistas no estrangeiro. Mas isso claramente não é verdadeiro no que tange, digamos, a Portugal ou a várias ditaduras sul-americanas.

Portanto, fala-se de fascismo para descrever regimes muito diferentes, embora, quando aplicado à Alemanha, à Itália ou ao Japão da época, há um entendimento ao que se refere. Orwell, ao analisar a política interna britânica, percebe que a palavra perdeu o último vestígio de significado. Segue a citação:

Porque, se examinar a imprensa, você verá que não existe quase nenhum grupo de pessoas — certamente não um partido político nem um corpo organizado de nenhum tipo — que não tenha sido denunciado como fascista durante os últimos dez anos.

Bem, aqui está o grande motivo de nós refletirmos sobre um texto escrito em 1944. Mais de 70 anos depois e a frase acima segue, literalmente, tão atual quanto uma notícia que saiu há 10 minutos em qualquer portal de notícias do planeta. Orwell enumera conservadores, socialistas, comunistas, trotskistas, católicos, os que resistem à guerra, os que apoiam a guerra e os nacionalistas, nessa ordem, como grupos de pessoas que comumente são adjetivados como fascistas.

Dessa forma, atenta que, do modo que é usada, a palavra fascismo é quase desprovida de significado. No lugar dela, ele supõe que quase todo inglês concordaria que troglodita seria um sinônimo. Afinal, “é a coisa mais próxima de uma definição a que chegou essa tão abusada palavra.” É lógico que o verdadeiro fascismo existe. Mas se George Orwell não o descreve, eu não me atrevo a defini-lo. Entretanto ele põe o dedo em algumas feridas sobre o assunto. Por isso, transcrevo, na sequência, a reflexão final do texto.

Por que, então, não podemos ter dele uma definição clara e aceita por todos? Ai de nós, não teremos uma — ainda não, pelo menos. Explicar a razão disso é algo que levaria muito tempo, mas basicamente é porque é impossível definir satisfatoriamente fascismo sem admitir coisas que nem os próprios fascistas, nem os conservadores, nem socialistas de nenhuma matiz querem admitir. Tudo que se pode fazer no momento é usar a palavra com certa medida de circunspecção e não, como usualmente se faz, degradá-la ao nível de um palavrão.

Considerações finais.

Setenta anos depois, não aprendemos com Orwell e, muito menos, com a História. É triste ver que a humanidade passou por tantos genocídios, a ponto de quase perder a própria acepção do termo humanidade, e, ainda assim, pouco compreendeu. Em suma, vivemos tempos sombrios quando utilizamos fascista como sinônimo de pessoa que discorda das minhas ideias.

Muito obrigado a você que me acompanhou no PlotCast Drops! Caso você não saiba, além de gerenciar o Plots eu também sou escritor e publiquei meu primeiro livro recentemente. Chama-se “Cronolapso, o apocalipse do tempo”. Se quer saber mais sobre o Cronolapso, basta acessar o site oficial do livro www.cronolapso.com.br.

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TEXTO, NARRAÇÃO E EDIÇÃO: Alexandre Kirst

TRILHA SONORA: Ross Bugden – Apocalypse (licensed under a ‘Creative Commons Attribution 4.0 International License) – www.youtube.com/channel/UCQKGLOK2FqmVgVwYferltKQ

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Alexandre Kirst
Alexandre Kirst
Um publicitário apaixonado pela intensidade das palavras.